(...) A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.
Herberto Helder
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Três Minutos De Atenção

Não me dê mais
Que três minutos de atenção
Eu fico em sobressalto
Refém da inquietação
Essa velha camarada
Que não deixa passar nada
E me tolda a razão
Ao terceiro minuto
Fico apaixonado
A sonhar como um puto
Por isso tem cuidado
Mantém frio o teu nervo
E conta bem o tempo
Que em pouca água eu fervo
Três minutos de atenção
Não digas sim nem não
Três minutos de atenção
Não digas sim nem não
domingo, 25 de outubro de 2009
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
terça-feira, 22 de setembro de 2009
sábado, 5 de setembro de 2009
domingo, 23 de agosto de 2009
As Coimbras
Um:
O homem da guitarra tem medo de uma corda.
Evita-a com insistência, faz contas
de cabeça - dórrémíssol - fala sozinho.
A guitarra do homem tem uma corda a menos.
Aflige-se sem desistência, é fá de si mesma,
toca baixinho.
O medo é a corda que nunca esteve,
a música que a corda dá.
Dois:
Todos os dias são terça-feira à noite,
em litígio com o sol,
no diligência.
Coimbra é um pedaço de luz no canto da mesa
e a mulher sentada que aguarda o fado.
É a conta certa de todos os dias,
matemática da noite de terça.
É hoje: Coimbra.
Cidade à noite, entre ruas apertadas na canção
e o recibo amarelo dos que pagam a manhã
com a música que lhes falta.
É a guitarra pousada sobre a mesa.
E a frase falsa,
poço de adjectivos que a prende aqui.
Se tivesse de escolher um único poema como sendo o "Meu Poema" escolhia este magnífico poema do meu amigo Sílvio..
sábado, 15 de agosto de 2009
Tia
"O momento mais difícil não é na hora da perda,
E sim no dia seguinte,
Onde procuramos e não encontramos
e temos a certeza que nunca mais teremos!"
Até Sempre!
E sim no dia seguinte,
Onde procuramos e não encontramos
e temos a certeza que nunca mais teremos!"
Até Sempre!
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Fingir que está tudo bem
fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.
José Luís Peixoto in A criança em ruínas
...fingir que está tudo bem. que a dor não existe ou é apenas um desconforto. que as dúvidas não importam e que as respostas me chegam. que desconheço o peso das palavras e não sinto o vazio do silêncio. fingir que está tudo bem: que lá fora está alguém e que não há solidão. que me chegam os abraços e não existe medo. por dentro um fogo que não se extingue mas que não se pode deixar ver. um grito ensurdecedor que se torna mudo. e ter de sorrir todos os dias: como um calor que nos gela ou um vazio que nos abraça. ou sufoca.
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.
José Luís Peixoto in A criança em ruínas
...fingir que está tudo bem. que a dor não existe ou é apenas um desconforto. que as dúvidas não importam e que as respostas me chegam. que desconheço o peso das palavras e não sinto o vazio do silêncio. fingir que está tudo bem: que lá fora está alguém e que não há solidão. que me chegam os abraços e não existe medo. por dentro um fogo que não se extingue mas que não se pode deixar ver. um grito ensurdecedor que se torna mudo. e ter de sorrir todos os dias: como um calor que nos gela ou um vazio que nos abraça. ou sufoca.
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