quinta-feira, 5 de novembro de 2009

(a carta da paixão)

(...) A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Helder

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Três Minutos De Atenção


Não me dê mais
Que três minutos de atenção
Eu fico em sobressalto
Refém da inquietação
Essa velha camarada
Que não deixa passar nada
E me tolda a razão

Ao terceiro minuto
Fico apaixonado
A sonhar como um puto
Por isso tem cuidado
Mantém frio o teu nervo
E conta bem o tempo
Que em pouca água eu fervo

Três minutos de atenção
Não digas sim nem não

Três minutos de atenção
Não digas sim nem não

domingo, 25 de outubro de 2009

Tu



Estou apenas a olhar para ti!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009


Brotam raízes de sonho no solo fértil da vida. Virá sol, virá tempo. Crescerá uma história, regada a água do coração. Basta estares atento e conhecerás a hora de intervir. Não te distraias, poeta. Lança em redor o olhar que vê para além do imediato.

Palavras sábias do meu amigo Alberto. Abraço..

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Outono


Hoje, só por ser Outono, vou chamar-te "meu amor"

sábado, 5 de setembro de 2009


Hoje, tenho as mãos cheias de rosas mas não a encontro..

domingo, 23 de agosto de 2009

As Coimbras


Um:
O homem da guitarra tem medo de uma corda.
Evita-a com insistência, faz contas
de cabeça - dórrémíssol - fala sozinho.

A guitarra do homem tem uma corda a menos.
Aflige-se sem desistência, é fá de si mesma,
toca baixinho.

O medo é a corda que nunca esteve,
a música que a corda dá.

Dois:
Todos os dias são terça-feira à noite,
em litígio com o sol,
no diligência.
Coimbra é um pedaço de luz no canto da mesa
e a mulher sentada que aguarda o fado.

É a conta certa de todos os dias,
matemática da noite de terça.
É hoje: Coimbra.
Cidade à noite, entre ruas apertadas na canção
e o recibo amarelo dos que pagam a manhã
com a música que lhes falta.

É a guitarra pousada sobre a mesa.
E a frase falsa,
poço de adjectivos que a prende aqui.


Se tivesse de escolher um único poema como sendo o "Meu Poema" escolhia este magnífico poema do meu amigo Sílvio..

sábado, 15 de agosto de 2009

Tia

"O momento mais difícil não é na hora da perda,
E sim no dia seguinte,
Onde procuramos e não encontramos
e temos a certeza que nunca mais teremos!"

Até Sempre!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Cais dos sonhos perdidos


No cais dos sonhos perdidos, onde és protegida pelos anjos
És do tamanho da tua vontade.
E depois de lá, aqui,
Tudo se apaga com a chegada da noite.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Fingir que está tudo bem

fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto in A criança em ruínas


...fingir que está tudo bem. que a dor não existe ou é apenas um desconforto. que as dúvidas não importam e que as respostas me chegam. que desconheço o peso das palavras e não sinto o vazio do silêncio. fingir que está tudo bem: que lá fora está alguém e que não há solidão. que me chegam os abraços e não existe medo. por dentro um fogo que não se extingue mas que não se pode deixar ver. um grito ensurdecedor que se torna mudo. e ter de sorrir todos os dias: como um calor que nos gela ou um vazio que nos abraça. ou sufoca.