quinta-feira, 5 de novembro de 2009

(a carta da paixão)

(...) A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.

Herberto Helder

3 comentários:

Daniel Silva (Lobinho) disse...

A tua apurada sensibilidade leva-te a coisas destas quando fazes citações. Gostei do sentido profundo do poema do Helberto Hélder.

Aquele abraço

Carla disse...

uma verdadeira luz nas trevas
beijos

Andreia disse...

Que bonito... =)